A obsolescência programada da nossa paciência

Quando toda atualização promete revolucionar o mundo, talvez o maior avanço seja simplesmente deixar aquilo que funciona em paz.

TECNOLOGIAREFLEXÃOCARREIRA

Ralph Rangel

7/4/20264 min ler

A obsolescência programada da nossa paciência

Hoje acordei e descobri que o mundo resolveu mudar enquanto eu dormia. Sem pedir licença, o Windows atualizou durante a noite e decidiu, por conta própria, que as minhas configurações do Menu e do Explorador de Arquivos eram antiquadas. Não bastasse isso, mudou também a forma como os arquivos são agrupados. Fico me perguntando: que horas eu pedi isso? Quem deu permissão para invadir minha área de trabalho e bagunçar minhas gavetas virtuais? O WordPress amanheceu com menus deslocados, novas caixas de textos e botões brincando de esconde-esconde, transformando o que eu fazia em três segundos em uma verdadeira expedição arqueológica pela interface. Até o Canva resolveu "melhorar", movendo ferramentas estrategicamente para que meu cérebro tenha o prazer diário de reaprender o que já dominava com folga.

No ambiente corporativo, o cenário é ainda mais frenético e descolado da realidade prática. O software de gestão da semana passada morreu para dar vida longa à nova plataforma do momento. Sai o Redmine e entra o ClickUp, que todos repetem ser mil vezes melhor, como um mantra religioso. Sempre dizem isso. O problema é que, daqui a um ano, surgirá outro, duas mil vezes melhor, e o ciclo recomeçará. Tem mais: sai o Flash e entra o iFood Benefícios. Agora vai! Enquanto isso, a equipe de infraestrutura anuncia, com entusiasmo quase messiânico, um novo ecossistema de autenticação em dois fatores, tokens, certificados e rituais complexos apenas para que o funcionário consiga acessar aquilo que, ontem, demandava um simples login e uma senha. Tudo isso aconteceu sem que ninguém pedisse, sem reuniões, sem pesquisas de satisfação e sem qualquer consulta aos usuários. Simplesmente mudaram.

Vivemos uma época curiosa em que se convencionou que mudar é sinônimo de evoluir, pouco importa se o sistema anterior funcionava, se as pessoas eram altamente produtivas ou se a equipe dominava a ferramenta com os olhos fechados; se a interface não mudou, parece que alguém no departamento de desenvolvimento deixou de trabalhar. Criou-se, assim, um verdadeiro culto corporativo à novidade, no qual programadores alteram layouts para mostrar serviço, consultorias vendem transformação digital como quem vende uma vitamina milagrosa e executivos apresentam gráficos coloridos provando que a mudança era necessária, embora ninguém na sala consiga explicar exatamente qual problema prático foi resolvido.

O resultado dessa dinâmica é o equivalente a reformar uma casa inteira apenas para trocar o interruptor de lugar. O mercado batiza isso ironicamente de experiência do usuário, mas o que se vê na prática é o exato oposto: a experiência piora, o tempo gasto com treinamentos aumenta, a curva de aprendizagem recomeça do zero, a produtividade despenca e o suporte técnico explode em chamados. Enquanto a engrenagem real da empresa bate cabeça para reaprender o básico, alguém no topo comemora dizendo que tudo está mais moderno. Mas não está; está apenas diferente.

Existe, afinal, uma diferença abissal entre inovação e agitação tecnológica, a verdadeira inovação reduz o esforço humano, elimina etapas desnecessárias e faz o usuário pensar menos para executar uma tarefa. A agitação, por outro lado, cria trabalho onde não havia, inventa novas etapas e obriga o indivíduo a despender energia reaprendendo o que ele já sabia fazer.

É curioso observar que, na engenharia tradicional, um projeto maduro é justamente aquele que permanece estável e confiável por anos; na medicina, protocolos de tratamento só mudam diante de evidências científicas robustas e exaustivamente testadas; na aviação, os pilotos agradecem profundamente quando o painel de controle da aeronave continua exatamente igual ao do voo anterior. Mas, no mercado de tecnologia, parece haver um prêmio de consolação para quem consegue mover um botão onze milímetros para a esquerda a cada trimestre, rotulando essa perturbação como evolução. Espera aí que o técnico sinalizou que vai mudar e levantou a plaquinha aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo: Sai o Oracle e entra o Oracle Exadata.

O que estamos testemunhando, na verdade, é uma epidemia silenciosa de fadiga tecnológica. Não é a tecnologia em si que nos cansa ou nos adoece, mas a obrigação permanente da reinvenção cotidiana. Logo, não é apenas a inoportuna e constante sensação da tecnologia em si que incomoda, mas o principal fato de nunca mais teremos domínio definitivo sobre as ferramentas que usamos para ganhar a vida, se antes nós aprendíamos a usar um software para poder trabalhar, hoje nós trabalhamos de graça para continuar aprendendo a usar o software.

Talvez a verdadeira revolução do futuro não venha de uma nova inteligência artificial ou de uma interface holográfica, mas sim da sobriedade. O ápice da inovação será o dia em que uma grande empresa de tecnologia tiver a coragem de lançar uma atualização cujo principal anúncio seja o de que nada foi alterado, porque tudo já estava funcionando perfeitamente. Nesse dia, farei questão de clicar no botão de atualizar imediatamente, sem reclamar, pela primeira vez em muitos anos.

Ralph Rangel é especialista em Psicologia e o Desenvolvimento Infantil e é especialista em Neurociência. Foi Secretário Executivo de Ciências, Inovação e Tecnologia no Município de Goiânia e foi Superintendente na Secretaria de Educação, Cultura e Esporte do Estado de Goiás.

Contato

© Ralph Rangel - Todos direitos reservados