Cofundador da Anthropic diz que melhores escolas perderão importância na era da IA

Engenheiro acredita que a inteligência artificial reduzirá o valor relativo da memorização e de determinadas habilidades técnicas, aumentando a importância de características essencialmente humanas.

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Ralph Rangel

8/17/20264 min ler

Cofundador da Anthropic diz que melhores escolas perderão importância na era da IA

Durante décadas, uma fórmula parecia oferecer aos pais um caminho relativamente seguro para preparar os filhos para o futuro: boas escolas, excelentes notas, atividades extracurriculares, universidade de prestígio e domínio de habilidades valorizadas pelo mercado. Para Ben Mann, cofundador da Anthropic e um dos profissionais que ajudaram a desenvolver o GPT-3 na OpenAI, a inteligência artificial está tornando essa estratégia muito menos previsível.

Mann afirma que sua própria maneira de pensar sobre a educação da filha mudou radicalmente. Em entrevista ao podcast de Lenny Rachitsky, originalmente publicada em julho de 2025 e que voltou a repercutir neste fim de semana, ele explicou que, dez ou vinte anos atrás, provavelmente tentaria colocá-la nas melhores escolas possíveis e preencheria sua rotina com atividades extracurriculares. Hoje, considera essas preocupações secundárias.

A mudança não significa que o executivo considere a educação desnecessária. Seu argumento é que o tipo de formação capaz de garantir uma vantagem profissional está mudando rapidamente. Em um mundo no qual sistemas de IA conseguem acessar informações, programar, produzir textos, pesquisar e executar tarefas intelectuais, simplesmente acumular conhecimento pode deixar de ser o principal diferencial humano.

Mann acredita que “aprender fatos” tende a perder protagonismo. Por isso, sua preocupação como pai passou a ser desenvolver características que considera mais resistentes à automação: curiosidade, criatividade, bondade, felicidade e capacidade de descobrir o que realmente desperta interesse.

Essa visão influenciou uma decisão concreta. Mann escolheu para a filha uma escola baseada no método Montessori, abordagem que tradicionalmente oferece maior autonomia à criança, estimula exploração e permite que parte do aprendizado acompanhe interesses individuais. Em vez de otimizar a infância exclusivamente para desempenho acadêmico, a intenção é fortalecer iniciativa e desenvolvimento pessoal.

Quando aprender uma habilidade deixa de ser suficiente

A reflexão ganha importância porque vem de alguém diretamente envolvido na construção da tecnologia que poderá transformar o mercado de trabalho. Mann foi um dos engenheiros que deixaram a OpenAI para fundar a Anthropic, empresa responsável pelo Claude. Ele também participou do desenvolvimento do GPT-3 antes da criação da companhia.

Sua preocupação está ligada à velocidade da evolução tecnológica. Uma habilidade que exige meses ou anos de aprendizado pode perder parte de seu valor econômico se uma inteligência artificial passar a executá-la rapidamente e por um custo muito menor.

O fenômeno já começa a aparecer em algumas profissões. Tarefas tradicionalmente destinadas a trabalhadores iniciantes são justamente aquelas mais suscetíveis à automação: produzir uma primeira versão de um texto, pesquisar informações, resumir documentos, gerar códigos relativamente simples, preparar apresentações ou organizar dados.

Isso cria um desafio especialmente grande para a educação. Escolas e universidades trabalham com ciclos longos, enquanto ferramentas de IA podem mudar significativamente em poucos meses. Ensinar apenas uma ferramenta ou procedimento específico corre o risco de preparar o estudante para uma atividade que poderá estar parcialmente automatizada quando ele chegar ao mercado.

A conclusão de Mann, entretanto, não é abandonar o conhecimento. A mudança está em qual conhecimento priorizar e, principalmente, como aprender. Curiosidade e autonomia tornam-se relevantes porque permitem que uma pessoa continue aprendendo mesmo quando tecnologias, profissões e ferramentas mudam.

Pensamento crítico também ganha importância. Quanto mais fácil se torna produzir uma resposta com inteligência artificial, maior é a necessidade de avaliar se aquela resposta faz sentido, identificar erros, confrontar fontes e formular perguntas melhores. A IA reduz o custo de obter informação, mas não elimina automaticamente a necessidade de julgamento.

Diploma não desaparecerá de uma hora para outra

A tese também exige cautela. A afirmação de que as “melhores escolas já não importam” representa a visão de Mann sobre um futuro profundamente influenciado pela IA, e não uma conclusão científica de que educação formal ou universidades de excelência perderam seu valor.

Instituições educacionais não servem apenas para transmitir fatos. Elas desenvolvem raciocínio, disciplina, convivência social, repertório cultural e capacidade de trabalhar com outras pessoas. Universidades também oferecem laboratórios, professores, redes profissionais e ambientes de pesquisa difíceis de substituir apenas por uma ferramenta digital.

Além disso, profissões como medicina, engenharia, Direito e diversas áreas científicas continuarão exigindo conhecimento especializado, certificação e responsabilidade humana, mesmo que a IA transforme profundamente a maneira como esses profissionais trabalham.

A mudança mais provável pode ser menos radical: em vez de tornar a formação acadêmica irrelevante, a inteligência artificial poderá reduzir o valor de uma educação baseada predominantemente em memorizar, repetir e executar procedimentos previsíveis.

Nesse cenário, saber utilizar IA também não será suficiente. Se praticamente todos tiverem acesso às mesmas ferramentas, simplesmente dominar um chatbot dificilmente representará uma vantagem permanente. O diferencial estará em saber o que perguntar, avaliar a resposta, conectar conhecimentos diferentes e transformar a capacidade da máquina em resultado.

É justamente aí que a reflexão de Mann se torna mais provocadora. Durante muito tempo, pais prepararam os filhos tentando antecipar quais conhecimentos o mercado exigiria. Com a inteligência artificial avançando rapidamente, talvez seja cada vez mais difícil prever quais habilidades técnicas continuarão valiosas daqui a dez ou vinte anos.

Em vez de tentar adivinhar qual profissão sobreviverá à próxima geração de IA, Mann prefere preparar a filha para continuar aprendendo e se adaptando independentemente da tecnologia disponível.

A discussão, portanto, não é simplesmente sobre trocar escolas tradicionais por inteligência artificial. É sobre uma questão muito mais profunda: se máquinas estiverem cada vez melhores em fornecer conhecimento e executar tarefas, o que continuará sendo essencialmente humano — e como as escolas devem ensinar isso às próximas gerações?

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